Será que existe alguém que não goste de lá? Sol rachando (e teoricamente é inverno), praia, milho cozido, biscoitos Globo, Guaravita, baile funk, Lapa e o principal... pessoas queridas... muitas! Qual a melhor cidade para morar, RJ ou SP? Eterno dilema.
BATALHA DO REAL
E por falar em Lapa... Tradicional, Batalha do Real. Tanto tempo "no ar", sempre cheia. Brutal, só sinistro! Rap carioca, acontecendo ali. Algumas revelações, outros empolgados. Mas sempre em movimento. Psicopata ganha de Ramiro, até então vencedor. Nessa noite, apresentação de Shaw, djs Babão, Tamenpi e Negralha, show do Mahal e Tigrão e batalha pornô engraçadíssima do Funk X Gil. Dá pra ser mais carioca?
BAILE DA FAZENDINHA
Domingo, uh, Fazendinhaaa!! Ponto de encontro, casa do Iky. Da Lapa pra Central, pega kombi que pára no pé do morro. Tudo igual há um ano atrás (Tati, fez falta!). O bonde, Shaw, Iky, Funk, Tapechu, Escamoso e eu. O Complexo do Alemão é formado por 12 comunidades (a Fazendinha, junto com a Grota e a Nova Brasília são as mais noróticas), 280 mil pessoas - nenhum posto de saúde, nenhuma creche, nenhum hospital, nenhum cinema, nenhum teatro. E o lazer? "Baile lotadão, vários bicos, preparados, é Fazendinhaaaa...". Não é à toa que é visto hoje como um dos morros mais perigosos, violentos e bem armados da cidade, aka "o pulmão do tráfico de drogas do Rio". Duas equipes, Pit Bull e Big Mix, uma em cada canto. No meio do mar de pessoas, bicos pra cima. AK47, fuzil russo. FAL, fuzil automático leve. AR15 e G3, armamento pesado. O bonde é pesadão, contenção de rajadão. Olhando em volta, poucas pessoas bebendo... mais barato outros baratos, tá ligado? "Titanic, Viagra, sem perder a linha, vende pacarai na boca da Fazendinha. A dose mais forte eu não posso esquecer, coquetel de droga com carimbo do CV... pancadão de cinco com carimbo do CV..."
No palco, Catra, o fiel. "Não beba uísque, beba Nescau, não fume cigarro a maconha é dois real..."
Esbórnia? O baile tem regras. Sem brigas, sem 157, sem olhar pra mulher dOs caras. Curte o baile tranqüilão, como deve ser. Li uma matéria sobre baile funk uma vez (infelizmente não lembro onde, faz tempo) que dizia que o tráfico já virou cultura. Os traficantes, seus ídolos, o funk, seu hino, o estado, seu inimigo, a polícia, seu representante. Ideologia, leis, símbolos.
"Pode vir, ao som do tamborzão..." tum tcha tcha, tum tum tcha... chapado mesmo é o som, viciada assumida. Funk é oito ou oitenta: ame ou odeie. Apesar dos produtores de funk não se preocuparem em encontrar samples mais originais (vai de Kenny G. a Tarantella - essa inclusive é incrível), nas montagens não se preocuparem com a harmonia, utilizarem a mesma base para trinta sons diferentes (idem para as baterias), é completamente impossível não se contagiar. Impossível ficar parado. Impossível não cantar junto.
"O Complexo do Alemão está em paz, o tráfico é neurótico e o bonde é sagaz". Dez pras cinco, partiu. No bolso, Sabrina da Provi e um Proibidão, cada um com pelo menos trinta faixas. Passando por Nova Brasília pra Central, pra Lapa, pra casa. Madruga vira dia, segundona de sol.
BAILE DA MANGUEIRA
Uns dias depois, baile de novo! Não dá para enjoar. A Mangueira faz parte do Complexo do Lins, formado por Andaraí, Borel, Salgueiro, Formiga, Turano, Fogueteiro, Canta Galo, Pavão, Pavãozinho, Jacaré, Mandela, Manguinho, São João, Sampaio, Matriz, Árvore Seca, Arará, Tuiti, Barreira, Providência e Prazeres.
Ruas, ruelas, escadarias e becos. Ponto de encontro, casa do Gil. Session regada de freestyle, Shaw, Gil e Chip, non stop. Duas da manhã, partiu pro baile, pra somar, Tapechu, Iky e Verônica. Lá, 3 equipes, Sampa Crill (assim mesmo), Piranhão Mix e Linkin Park, uma do lado da outra ao invés de ser uma de frente para outra. Cada vez que mudava a equipe, toda a multidão seguia o pancadão. As ruas, estreitas, davam a impressão de que a qualquer grave mais deselegante, as casinhas em frente voariam.
"Um minuto de silêncio pro nosso irmãozinho!" - gritou o dj. Respeito absoluto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . "Tá tomadooo!! Pau no c* do mundo!! Rasga o céu Mangueiraa!" Na multidão, um menorzinho (12? 13?) puxando o bonde do mete bala. "Na vida do crime menor boladão, fumando maconha de G3 na mão". Independente do contexto, a imagem sempre impressiona, triste. O baile segue. No palco, Sabrina da Provi. Ô mina boladona neurótica, a melhor mc de funk. Solta a voz, vermelhona. "Que careta que é você, fica só no sapatin, é melhor tu dá um dois, na maconha do boldinho..." (...) "aperta logo o quebé, sai rolando pra geral, cada um que dá um doizinho fica fora do normal..."
E a batalha eles X elas continua...
"Fale quem quiser falar, que eu não vou bater neurose, se vier cheia de marra, vou mandar sentar no poste... senta senta sentaaa..."
"Eu vou te dar um papo, vê se pára de gracinha! Eu dou pra quem quiser que a p***a da b****a é minha! É minha, é minha, a p***a da b****a é minha! Agora meu amigo vai tocá uma punhetinha, pq eu dou pra quem quiser que a p***a da b****a é minha!!"
E a batalha amantes X fiel continua...
"Fiel o carai, vc é empregadinha, lava, passa e cozinha, mas a p**a dele é minha..."
"Na lei do retorno, as fiel voltam de novo, as amantes tão no baile só mandando o papo torto. Ficam cheias de caozada, tremenda vacilação, correu de mim no inverno, com certeza no verão. Se acaso eu te pegar, vou deixar tirando onda, quero ver, vc dar, dar palinha de hematoma! Dá pa dá pa dá pa dá, dá palinha de hematoma... No calor do baile funk, eu achei um absurdo, lá vem ela, toda tampada, usando óculos escuro. As amigas então perguntam quem é que foi tão cruel, ela olha pra mim, abaixa a cabeça, e eu respondi foi a fiel!"
"Vamos embora cedo?" "Cedo? Só se for da manhã, porque já são cinco". Partiu. "Será que amanhã tem o baile da Formiga?" Ô vício...
RIO (mas eu) CHORO
A cada partida, parte antes meu coração. Só por tu arrasto um bonde inteiro.
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